OURO FÁUSTICO: SINGELO CONTO MANUSCRITO COM SANGUE.
Por Luís Fernando Franco Martins Ferreira
1. EXÓRDIO.
A assim denominada civilização ocidental repousa impavidamente sobre duas pilastras monumentais que correspondem, no âmbito conceitual, à dicotomia de jaez platônico entre corpo e alma, razão pela qual se costuma aquiescer que a história da filosofia jamais logrou efetivamente transcender o estatuto de mero apanhado de glosas marginais ao discurso de Platão, asserção com a qual me disponho em plena concordância, ressalvada a objeção de que uma de tais glosas, publicamente conhecida como materialismo histórico e dialético, merece o honroso crédito de ter haurido a façanha de descortinar o segredo prático de tais pilares civilizatórios ao identificar, no duplo aspecto da categoria econômica da mercadoria enquanto valor de uso e valor de troca, os seus componentes, respectivamente, concreto e abstrato, ou, se assim o preferirem, corporal e anímico, cabendo, todavia, assinalar que este último aspecto da supracitada mercadoria alcança invariavelmente um patamar em que, ao se destacar do outro aspecto, passa a compor algo aquinhoado com o condão de equivaler a qualquer coisa, a saber, de se convolar em qualquer produto do engenho humano: o dinheiro.
Como alma dissociada do corpo, o dinheiro, contudo, adquiriu pioneiramente, na história econômica, a forma de metal precioso, notadamente de ouro, malgrado hodiernamente tenha desinibido seu caráter abstrato e anímico nas moedas digitais ou criptomoedas, que prescindem de suporte físico para funcionar, parecendo lícito ventilar que, no ser humano, a respectiva alma também encerra dotes monetários, tanto que Fausto alienou-a para Mefistófeles em troca de poderes mundanos, mas para os propósitos que nos interessam mais imediatamente neste momento, basta observar que o conspícuo artista barroco de alcunha Aleijadinho, de saudosa memória, adornou seus templos abundantemente com tintas douradas, decerto para registrar que o ouro, cor do dinheiro, marca indelevelmente o edifício religioso com a faceta mais insondável da alma.
2.EPIFANIA.
No curso dos anos 1980, o Menino, então com dez anos de idade, foi conduzido por seus pais e pelo avô materno, por quem nutria verdadeira adoração, máxime quanto a este último, exímio mágico ilusionista de nomeada e ventríloquo de talento nacionalmente festejado, a uma viagem turística pelas cidades históricas de estilo barroco colonial, no Estado das Minas Gerais, passeio este que teve como apogeu, por evidente, o município de Congonhas do Campo, berço do aludido avô, fato este que, de antemão, conferia ao logradouro certa aura de natural encantamento, dados os poderes supostamente sobrenaturais e mesmo hipnóticos exibidos pelo parente ali engendrado e concebido, mas mencionada aura teve sua magnitude exponencialmente expandida no exato momento em que os viajantes aportaram no santuário do Bom Jesus de Matosinhos, edificado e adornado pelo venerável artista plástico Aleijadinho, pois qual não foi a sensação de embevecimento epifânico que arrebatou de súbito o Menino ao se deparar com as estátuas dos doze profetas bíblicos lapidados em pedra sabão pelo mestre artesão mineiro, em particular diante da escultura pétrea de Daniel com o leão em seu entorno, uma imagem de dotes magnéticos hábil a inscrever perenemente, no palimpsesto da memória e da imaginação infantil, uma história indelével de mítico heroísmo e significado, tanto que o Menino penetrou incontinenti em estado onírico, malgrado ainda plenamente desperto e vigilante, com encetar uma condição de delírios e alucinações controlados que o transportaram a episódio de completo êxtase, de que dão notícia também os ulteriores desenhos e rabiscos a propósito, que ele elaborou a lápis quando chegou, durante o crepúsculo, no hotel onde estava hospedado, os quais reproduziam com relativa exatidão aquela figura imponente e inesquecível do profeta bíblico com a fera ao seu lado, sendo certo que tal experiência quase mística do Menino com a obra imortal do aclamado artista disforme encerraria o condão de funcionar como divisor de águas em sua existência, eis que nada emularia tal momento catártico, não obstante as posteriores viagens empreendidas ao redor do planeta, as quais lhe ensejaram o contato com peças artísticas até mais afamadas, mas nenhuma delas tão visceralmente entranhada em sua constituição como elemento humano, pois Aleijadinho comoveu seu mais recôndito âmago enquanto conterrâneo e colega de ofício de seu avô materno, sim, pois se este atribuía dicção a bonecos articulados de mogno, o gênio do barroco mineiro inseria alma em pedra bruta.
3. NARRATIVA.
Duzentos e cinquenta anos antes dos supracitados episódios, certo sacerdote católico, de cediços talentos e ciências exorcistas, banhava a cabeça do Artista, ainda criança imberbe, na pia batismal do templo cristão, com proferir simultaneamente locuções canônicas em idioma latino que colimavam afastar definitivamente o Satanás da existência daquela pequena criatura, que agora era solenemente introduzida na comunidade religiosa sediada em Roma e conduzida pela douta e santa autoridade do Papa, cabendo destacar que aquele momento sacramental era também acompanhado de imenso júbilo pelos genitores do infante, eis que o pai, concomitantemente ao ritual sacro, estava de posse da carta civil de alforria da mãe, sua escrava até então, o que conferia ao ato determinado jaez festivo incompatível, sob certo ponto de vista, com a austeridade e gravidade da figura do pároco que presidia as solenidades, mas o fato é que nada encerraria o condão de subtrair ao evento, ora comentado, o seu caráter e sua expressividade enquanto manifestação do mais elevado ânimo tipicamente ecumênico e fraterno, pois batismo e alforria exibiam-se consentâneos com o preceito da cristandade em grau de extremo relevo, como resta evidente, razão pela qual a corporação dos arquitetos daquele logradouro proporcionou ao seu destacado membro, genitor do Artista, uma alentada confraternização ocorrida logo após esse sacramento, de tal sorte que a confraria avençou então que aquela criança esposaria como ofício vindouro precisamente a profissão do correspondente pai, mas, a despeito dos ingentes esforços envidados por este para ensinar ao rebento as artes manuais da carpintaria e da arquitetura desde tenra adolescência do Artista, este não exibia qualquer traço de talento ou vocação para aquilo, com preferir dedicar-se à leitura e aos estudos bíblicos e literários, o que efetuava com colossal competência e satisfação, competência esta, aliás, que o respectivo pai não reconhecia nem admitia, tanto que o repreendia moral e por vezes até fisicamente, de maneira extremamente severa, por não se dedicar com afinco ao aprendizado de um ofício respeitável e monetariamente alvissareiro como o exercido pelo genitor, e foi por ocasião de um desses casos de acerba repreensão moral que o Artista, vagando de maneira melancólica e atrabiliária pelas ruas do logradouro, veio a se deparar com uma moça de alcunha Margarida, poucos anos mais velha do que o nosso garoto e cujo olhar, de cintilante azul talássico, hipnotizou liminarmente o adolescente, que sentiu o sangue ferver em suas veias de forma pioneira e, concomitantemente, foi arrebatado pela sensação de imergir velozmente nas águas profundas do anil oceânico evocado por aquelas íris azuladas da rapariga de corpo esbelto e bem esculpido, sendo exequível asseverar que naquele encontro, conquanto furtivo, floresceu no jovem Artista uma paixão repentina de inquebrantável intensidade, que o acompanharia até o derradeiro suspiro, um sentimento, todavia, que tudo indicava estar condenado a cingir-se ao jaez platônico, pois Margarida arremessava ao chão, em evidente manifestação de desprezo e mesmo crueldade, todas as rosas vermelhas que nosso moço lhe oferecia com a mais cândida ternura que brota do âmago do átrio esquerdo do peito, atitude esta que só fez inflar o ânimo melancólico e atrabiliário do infeliz Artista, que não lograva resultados no trabalho nem hauria sucesso no amor, razão pela qual decidiu comparecer, como efetivamente compareceu, munido de um ícone de São Lucas Evangelista entalhado em madeira, a uma casa que promovia rituais religiosos clandestinos de extração africana, colimando resolver os seus problemas diante do trabalho e do amor, para adquirir dotes de exímio artesão e bem sucedido galanteador perante a sua venerada Margarida, enfim, para obter pela via sobrenatural poderes mundanos aptos a lhe ensejarem a tão almejada felicidade terrena, mas na manhã seguinte à sua participação na mandinga neste estabelecimento de cultura subsaariana, foi acometido por algo tenebroso e horripilante, eis que, logo ao acordar, percebeu de plano que lhe tinham sido amputados, de alguma forma durante a noite, todos os dedos dos pés e quase todos os das mãos, restando-lhe tão somente os polegares e os indicadores, bem assim que havia sofrido severas deformações no rosto, o que o fez emitir avolumado grito de puro terror que deve ter sido percebido a quilômetros de distância, o qual foi incontinenti seguido por síncope que durou alguns minutos, mas o certo é que, quando recobrou o sentido, foi tomado pela irrefreável conjectura de que aquela tragédia era devida a alguma espécie de sanção punitiva da providência divina, conjectura esta que veio acompanhada de incontornável sentimento de culpa e necessidade de se redimir o quanto antes perante a religião católica, que o acolhera desde praticamente o nascedouro, máxime porquanto o seu pecado era de índole mortal e poderia render-lhe quiçá a incineração na fogueira, se descoberto fosse, então celebrou contrato com a própria consciência e prometeu a Deus que, doravante, dedicar-se-ia integralmente, com doar a própria vida, a prestigiar os esforços de seu genitor e edificar, para a glória da santa igreja apostólica romana, uma obra integralmente sacra que quedasse erigida para a posteridade, motivo pelo qual seu assistente passou imediatamente a atar com panos, em seus membros superiores deformados, ferramentas para escultura, tanto em madeira como em pedra sabão, tais como goivas, cinzéis, formões e martelos, mas nosso Artista, sem os dedos dos pés, era compelido a laborar de joelhos, em genuflexão, como se entoasse uma prece, e assim ele produziu e adornou, durante décadas, templos e imagens de santos, Nossa Senhora e Nosso Senhor Jesus Cristo, sempre banhando sua obra, de forma opulenta, com ouro abundante, consoante já o aduzimos no exórdio do vertente discurso, merecendo destaque que sua derradeira produção artística consistiu em lapidar, em pedra sabão, as imagens dos doze profetas bíblicos em dimensões monumentais, de tal sorte que quanto à última de tais estátuas, a representar o profeta Daniel com um leão ao seu lado, teve a impressão de que seu trabalho atingira a culminância e perfeição, pois parecia encerrar até mesmo o dom da fala, com pressentir então que sua promessa diante de Deus estava devidamente cumprida, razão pela qual indagava ao seu Daniel pétreo se já estava apto a retirar-se do ofício e aposentar-se, mas jamais logrou resposta.
4. PERORAÇÃO
Aos setenta anos de idade, o Menino teve ciência, pelos meios de comunicação, que um severo abalo sísmico atingira a região de Congonhas do Campo, danificando o santuário do Bom Jesus de Matosinhos, máxime as doze estátuas dos profetas bíblicos, notícia que o comoveu profundamente, tanto que se dirigiu incontinenti àquele logradouro para examinar de perto o ocorrido, e qual não foi sua surpresa ao deparar-se com a imagem pétrea de Daniel, que perdera a parte capital, que representava a cabeça da personagem, restando apenas o corpo e a fera intactos, e o Menino chorou copiosamente, como nunca antes em toda a sua vida.