quinta-feira, 2 de maio de 2019

BREVÍSSIMA CONJECTURA SOBRE ACELERAÇÃO DO TEMPO

Parece-nos que, assim como acontece com a gravidade, vigora uma lei consoante a qual à medida que o tempo histórico avança, a velocidade dos acontecimentos e das transformações históricas aumenta: considerando, verbi gratia, o desenvolvimento tecnológico, resta fácil constatar que a sociedade hodierna, sob o aguilhão do capital, impulsiona transformações e melhorias técnicas com velocidade impensável no período que Karl Marx denominaria antediluviano, a saber, anterior ao advento do capitalismo, máxime a partir da revolução industrial inglesa do século XVIII.

Parece-nos, outrossim, que com os indivíduos sucede, grosso modo, o mesmo no que pertine à percepção do tempo: com efeito, à medida que envelhecemos, temos a impressão de que o tempo escoa com maior velocidade.

Eu ousaria arriscar uma conjectura para explicar tal sensação individual de aceleração do tempo:

Ora, a percepção do tempo para o indivíduo depende do lapso temporal que ele já viveu, de tal sorte que, quanto mais idoso o indivíduo, mais veloz parece-lhe escoar o tempo, vale dizer, mais velozes parecem-lhe os acontecimentos.  

Tentarei ilustrar esta conjectura com um exemplo bastante singelo: para uma criança de dois anos de idade, viver mais um ano significa acrescentar mais 50% do seu tempo de vida, ao passo que para uma pessoa de, digamos, cem anos de idade, viver mais um ano representa acrescentar apenas mais 1% do que já viveu; portanto, para o indivíduo, o tempo que acrescenta à sua vida é proporcionalmente cada vez menor e, destarte, parece mais veloz, parece escoar mais rapidamente.

Restaria examinar se há, então, certa mímese entre a velocidade de escoamento do tempo histórico e a do tempo individual, mas isto deixarei para outra publicação neste blog. 

(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira, historiador)

sexta-feira, 22 de março de 2019

BREVÍSSIMA CONSIDERAÇÃO SOBRE O CAPÍTULO PRIMEIRO DE "O CAPITAL" DE KARL MARX

BREVÍSSIMA CONSIDERAÇÃO SOBRE O CAPÍTULO PRIMEIRO DE "O CAPITAL" DE KARL MARX.

Se considerarmos a demanda econômica como conjunto das necessidades humanas concretas, concernentes aos valores de uso das mercadorias, então é factível aduzir que o problema da dissociação entre oferta e procura, a saber, entre produção e consumo (ou circulação) já se encontra implícito no capítulo primeiro do livro primeiro de O Capital de Karl Marx, que versa sobre a mercadoria, o que apenas confirma a grandiloquência do pensamento crítico desse autor.

Com efeito, no duplo caráter da mercadoria como valor de uso e valor já reside, respectivamente, a dissociação entre demanda e oferta: ora, a oferta no capitalismo guarda como escopo tão somente a obtenção de mais-valia, isto é, a valorização de valor, sem qualquer consideração com a demanda concreta por valores de uso, nos termos acima, dissociação esta que induz à possibilidade de crises recorrentes típicas do caos econômico ínsito ao modo de produção capitalista. 

(POR LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

HIPÓTESE MARXISTA PARA UMA LEI TENDENCIAL DO VALOR

Como cediço, o valor da mercadoria, para Marx, é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la, mas essa média social, em “O Capital”, restou indeterminada quanto ao espaço e quanto ao tempo, vale dizer, não se atrela tal média social a qualquer limite concreto de ordem espaço-temporal.

Urge, pois, aventar a hipótese de que esta média social é tendencialmente mais ampla no espaço ao longo do tempo, a saber, ao longo da história, conquanto se verifiquem também retrocessos contrários à tendência histórica geral.

Destarte, podemos discernir alguns períodos históricos quanto ao nível concreto em que se determina a média social que estabelece o valor das mercadorias, a saber:

1) Nível local, no âmbito das corporações de ofício, quando predomina a produção artesanal, o dinheiro ainda fica atrelado ao ouro e a circulação de mercadorias é restrita também ao âmbito local;

2) Nível nacional, no âmbito dos Estados-nações mercantilistas, quando predomina a produção manufatureira (com subsunção meramente formal do trabalho no capital), circulação de mercadorias muito restrita ao âmbito nacional e dinheiro ainda em forma metálica de ouro ou prata;
3) Nível nacional ainda, mas com maior desinibição da circulação internacional de mercadorias entre os Estados-nações ditos “liberais”, predomínio da maquinaria e grande indústria (com subsunção real do trabalho no capital) e dinheiro em papel-moeda nacionalmente impresso.
4) Nível mundial, a ser alcançado no comunismo em todo o planeta.


Observe-se que o dinheiro torna-se cada vez mais virtual quanto ao seu suporte material, em razão da gradativamente menor quantidade de trabalho consubstanciada nas mercadorias individualmente consideradas.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)

quinta-feira, 14 de junho de 2018

MAIS-VALIA RELATIVA E VELOCIDADE DE CIRCULAÇÃO DE CAPITAL

MAIS-VALIA RELATIVA E VELOCIDADE DE CIRCULAÇÃO DE CAPITAL.

Consoante o disposto no capítulo décimo do livro primeiro de O Capital de Karl Marx, que versa sobre a mais-valia relativa, o capitalista que pioneiramente inova no processo de produção, diminuindo o tempo de trabalho necessário para produzir sua mercadoria, torna-se capaz de vender tal mercadoria por um preço menor que o seu valor, porém maior que o tempo de trabalho gasto em sua produção, o que lhe confere vantagem no mercado. 

Mas essa vantagem dura apenas o tempo de difusão social dessa inovação do processo de produção da mercadoria em comento, pois assim que a nova tecnologia se propaga socialmente, passando a constituir a regra do processo produtivo da mercadoria, o capitalista pioneiro perde a vantagem e passa a concorrer no mercado em igualdade de condições com os outros capitalistas.

Por isso é que, para o capitalista pioneiro, exibe-se importante a velocidade de circulação de capital, pois quanto maior essa velocidade, mais mercadorias a menor preço ele poderá vender no mercado, por ele dominado enquanto sua inovação tecnológica não se difundir socialmente.

Os investimentos em infraestrutura, notadamente em transportes e telecomunicações, aumentam a velocidade de circulação de capital e, assim, fomentam o pioneirismo na inovação do processo produtivo, atuando como móvel do desenvolvimento tecnológico no capitalismo, sendo certo que há evidências de que as revoluções técnicas do sistema estão fortemente relacionadas com os ciclos econômicos de longa duração.

A revolução digital, por exemplo, atuou fortemente no campo das telecomunicações para aumentar a velocidade de circulação de capital. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)

quarta-feira, 23 de maio de 2018

DIONÍSIO, APOLO E SÓCRATES NA MÚSICA.

Em sua magistral obra intitulada "O nascimento da tragédia, ou helenismo e pessimismo", o filósofo Friedrich Nietzsche encetou uma fecunda distinção entre os impulsos artísticos apolíneo e dionisíaco, colimando demonstrar o renascimento do espírito da tragédia grega antiga no assim denominado "drama musical" de Richard Wagner, mas não parou por aí, pois também deduziu o aviltamento de tais impulsos artísticos pelo racionalismo socrático, que teria ferido mortalmente a arte grega mítica de Ésquilo e Sófocles. 

Nietzsche, decerto, associava o impulso dionisíaco à música e à assim designada "natureza uno-primordial", bem assim o impulso apolíneo às artes plásticas e ao "princípio da individuação".         

Eu ousaria aventar aqui a hipótese segundo a qual na própria música também encontram-se em permanente atividade e dinamismo os elementos encontradiços na arte em geral, a saber, os ingredientes dionisíaco, apolíneo e socrático. 

Com efeito, a dissonância atonal e a indistinção natural e primordial dos sons pode muito bem ser atrelada ao impulso dionisíaco, enquanto as notas musicais individualmente consideradas e melodicamente justapostas acomodam-se perfeitamente ao impulso apolíneo e ao seu "princípio da individuação". 

Já o elemento socrático-teórico, por assim dizer racionalista da música poderia corresponder às regras do tonalismo na teoria musical, que está em constante altercação com a dissonância atonal típica do gênio dionisíaco.

São hipóteses a desenvolver, sujeitas ao crivo crítico.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)

segunda-feira, 30 de abril de 2018

O HOMEM AMARELO

O pintor holandês Vincent van Gogh, portador de transtorno afetivo bipolar e obcecado pela cor amarela, fracassou, em vida, em todos os aspectos de sua breve existência: desastroso nos campos amoroso, profissional, financeiro, familiar, etc, ele foi, nada obstante, postumamente reconhecido e consagrado como o mais importante artista plástico de sua época e, decerto, um dos mais relevantes expoentes de toda a história da arte, e quiçá seu ponto culminante - ao menos na humilde opinião do autor que aqui lhes dirige a palavra.

A sua vida é, de fato, de um apelo irresistível ao biógrafo, mas seria factível um exame materialista histórico de sua obra, objetivamente isento?

A questão metodológica, que aqui se nos antolha preambular, consiste no seguinte: em nosso sentir, a aproximação de jaez marxista, como colimamos demonstrar, desvela-se não apenas possível como, sobretudo, absolutamente necessária à averiguação precisa da relevância histórica da arte de Van Gogh.

Limítrofe entre o figurativismo e o abstracionismo, sua obra pictórica representa provavelmente o liame mais significativo, na orbe das artes, da transição entre as formações sociais pré-capitalistas, ou "antediluvianas", e o capitalismo propriamente dito, e, nesse sentido, seu estudo guarda o condão de desnudar relações inusitadas.

Creio que já se postulou, amiúde, ser a pintura abstrata coeva do trabalho também abstrato, aquele apartado dos meios de produção e que serve ao capital para produzir mais-valia, enquanto a arte figurativa amolda-se mais aos períodos históricos que precedem o modo de produção capitalista, máxime ao artesanato, quando o trabalhador ainda possui os meios de produção.

Ora, a obra de Van Gogh exibe-se, no essencial, como a arte de transição por excelência entre essas duas épocas: com efeito, cuida-se do artista que efetuou, e de forma pioneira, a dissociação mais radical entre as cores, notadamente o amarelo, e as figuras ou formas que lhes dão suporte na tela, de tal sorte que os objetos nela representados perdem suas cores naturais e assumem outras que o artista, ao seu alvedrio, lhes atribui artificialmente. 

Mas, a escolha das cores dos objetos seria de fato aleatória para esse artista? O que dizer do predomínio do amarelo na obra de Van Gogh?

Suponho também que já se suscitou que tal predomínio é caudatário de determinado defeito ocular do artista provocado por medicação.

Nada mais falacioso.

O amarelo de Van Gogh é a cor do ouro, vale dizer, do dinheiro por natureza, precisamente o metal que cumpre a função social de representar a quantidade de trabalho abstrato ou o valor das mercadorias. O próprio Karl Marx diria que se trata do metal que, com sua cintilante cor amarela, consubstancia a "gelatina" de trabalho abstrato, de massa disforme de valor, a saber, o próprio símbolo do capital. 

Ao libertar o amarelo-ouro de seus suportes figurativos, Van Gogh na verdade representa no plano pictórico a dissociação entre trabalho e meios de produção, que engendra o trabalho abstrato e sua medida, o valor, por seu turno consubstanciado, como equivalente geral, no dinheiro, no ouro, no vil metal de cor amarela. 

Esse artista genial removeu de suas figuras as respectivas cores naturais e as pintou de amarelo, de ouro, de dinheiro: assim como este se converte em qualquer mercadoria, as figuras e formas das telas de Van Gogh perdem a cor natural e assumem a cor amarela, convolando-se em abstrações, em formas mutuamente conversíveis.

Seria um figurativismo abstrato, ou um abstracionismo figurativo? O que se pode asseverar com certo grau de certeza é que a conversibilidade das figuras amarelas do artista neerlandês reproduz o mecanismo pelo qual, sob o pálio do capitalismo, o dinheiro convola-se em mercadoria e vice-versa, essas "gelatinas de trabalho abstrato", de valor. 

Por derradeiro, se o Mouro de Trier estudou o dinheiro com absoluta falta dele no bolso, o artista holandês também pintou suas figuras douradas sem conseguir convertê-las no vil metal amarelo que tanta falta lhe fez. 

Seria Vincent van Gogh o Karl Marx das artes?

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)                                                                 

domingo, 1 de abril de 2018

NOVAS CONJECTURAS FILOSÓFICAS, OU O MATERIALISMO HISTÓRICO COMO "EXISTENCIALISMO SOCIAL"

Hegel parece ter sido o pioneiro a conferir inteligibilidade à história das sociedades mediante sua lógica dialética, muito embora seu idealismo absoluto tenha atribuído verniz um tanto opaco e irreal aos indivíduos concretos. 

Em sua crítica mordaz a esse pensador, Kierkegaard, no entanto, claudicou, pois se debruçou competentemente sobre a história do indivíduo concreto, descurando, todavia, da história das sociedades e sua lógica dialética.             

Mas a crítica existencialista ao idealismo hegeliano rendeu bons frutos, máxime ao postular que "a existência precede a essência".

Sim, pois o materialismo histórico contido em "A ideologia alemã", de certa forma, adotou esse brocardo existencialista ao expor, ainda que um tanto esquematicamente, a história das sociedades na sucessão dos modos de produção até a vindoura humanidade real sob o comunismo, com a superação de sua fragmentação em classes sociais distintas e em diversos Estados nacionais. 

Nesse diapasão, postularíamos que o materialismo histórico, nos termos acima, pode ser tomado como um certo "existencialismo social" em que existência (isto é, o devir histórico e concreto das sociedades humanas) precede a essência (a verdadeira humanidade, despojada de divisões entre classes sociais e Estados nacionais, mas, ao contrário, mundialmente reunida sob a égide do comunismo).

Nem é por outra razão que o próprio Karl Marx asseverou a certa altura, analogicamente, que "a anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco", vale dizer, "as categorias que exprimem as relações da sociedade burguesa, a compreensão de sua própria articulação, permitem penetrar na articulação e nas relações de produção de todas as formas de sociedade desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos se acha edificada (...)"

Nesses casos, a essência somente se evidencia na totalidade do devir, na obra acabada, isto é, na existência, que no materialismo histórico sempre é concreta e diacrônica.

São conjecturas submetidas ao crivo da apreciação crítica.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)