domingo, 4 de agosto de 2019

MANHEM

https://www.youtube.com/watch?v=B8tLAO6BXA8&list=RDB8tLAO6BXA8&index=1

O LOUCO

O Louco


            Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

            Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”
            Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
            E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
            Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”
            Assim me tornei louco.

            E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

(POR GIBRAN KHALIL GIBRAN)

segunda-feira, 22 de julho de 2019

SEIS DIVAGAÇÕES SOBRE HISTÓRIA COMPARADA


SEIS DIVAGAÇÕES SOBRE HISTÓRIA COMPARADA

  1. De proêmio, tanto na Antiguidade como no Medievo, temos uma classe aristocrático-militar que não trabalha e que nutre sua existência material mediante extorsão de uma parcela da produção social realizada pelos trabalhadores rurais (um “excedente econômico”, por assim dizer) mediante a violência.
  2. No entanto, os escravos antigos são mais espoliados que os servos medievais, o que se observa na maior opulência material da classe aristocrático-militar da Antiguidade ocidental, máxime do Império Romano, indício de que o consumo improdutivo de tal classe improdutiva antiga era comparativamente maior do que o consumo improdutivo da classe nobre medieval.
  3. Nesse diapasão, à classe servil medieval era factível investir produtivamente certo excedente econômico que lhe restava após o desconto da corveia, de que resultou o florescimento de um comércio e uma produção artesanal que puderam prosperar comparativamente mais do que o comércio e o artesanato antigos, fomentando as bases materiais do ulterior modo de produção capitalista.
  4. Cabe aduzir que na região onde os servos da gleba exibiam maior liberdade econômica em relação à nobreza medieval, no atual Reino Unido, tais bases materiais cresceram mais rapidamente do que no restante da Europa, favorecendo portanto a eclosão da Revolução Industrial do século XVIII naquelas plagas.
  5. Com o advento do modo de produção capitalista, exsurge uma classe burguesa industrial que, sem produzir diretamente, administra, porém, por meio de sua propriedade privada e posse direta dos meios de produção, o trabalho da classe produtora operária, dela extorquindo um excedente econômico, a mais-valia, que é em parte consumido produtivamente, enquanto outra parte é incorporada ao consumo improdutivo tanto dessa burguesia industrial quanto da classe integrante de um novo estamento improdutivo que constitui o Estado burocrático-militar capitalista, sendo certo que esta parte do consumo improdutivo estatal identifica-se com o novo arcabouço tributário mantenedor de tal classe burocrático-militar.
  6. Um exemplo histórico peculiar de como o excedente econômico produtivamente reinvestido proporciona uma desinibição mais célere das forças produtivas seria o caso observado na Guerra Civil do século XIX, nos atuais Estados Unidos da América: o sul escravista, em que praticamente todo o excedente econômico era improdutivamente consumido pela aristocracia rural, não foi capaz de derrotar militarmente o norte da pequena propriedade privada dos meios de produção, onde o excedente econômico era reinvestido produtivamente por tais pequenos proprietários livres de obrigações servis ou escravistas, de que resultou uma atividade industrial pujante que mais tarde se firmaria como a maior potência econômica no mundo. (por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)

quinta-feira, 2 de maio de 2019

BREVÍSSIMA CONJECTURA SOBRE ACELERAÇÃO DO TEMPO

Parece-nos que, assim como acontece com a gravidade, vigora uma lei consoante a qual à medida que o tempo histórico avança, a velocidade dos acontecimentos e das transformações históricas aumenta: considerando, verbi gratia, o desenvolvimento tecnológico, resta fácil constatar que a sociedade hodierna, sob o aguilhão do capital, impulsiona transformações e melhorias técnicas com velocidade impensável no período que Karl Marx denominaria antediluviano, a saber, anterior ao advento do capitalismo, máxime a partir da revolução industrial inglesa do século XVIII.

Parece-nos, outrossim, que com os indivíduos sucede, grosso modo, o mesmo no que pertine à percepção do tempo: com efeito, à medida que envelhecemos, temos a impressão de que o tempo escoa com maior velocidade.

Eu ousaria arriscar uma conjectura para explicar tal sensação individual de aceleração do tempo:

Ora, a percepção do tempo para o indivíduo depende do lapso temporal que ele já viveu, de tal sorte que, quanto mais idoso o indivíduo, mais veloz parece-lhe escoar o tempo, vale dizer, mais velozes parecem-lhe os acontecimentos.  

Tentarei ilustrar esta conjectura com um exemplo bastante singelo: para uma criança de dois anos de idade, viver mais um ano significa acrescentar mais 50% do seu tempo de vida, ao passo que para uma pessoa de, digamos, cem anos de idade, viver mais um ano representa acrescentar apenas mais 1% do que já viveu; portanto, para o indivíduo, o tempo que acrescenta à sua vida é proporcionalmente cada vez menor e, destarte, parece mais veloz, parece escoar mais rapidamente.

Restaria examinar se há, então, certa mímese entre a velocidade de escoamento do tempo histórico e a do tempo individual, mas isto deixarei para outra publicação neste blog. 

(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira, historiador)

sexta-feira, 22 de março de 2019

BREVÍSSIMA CONSIDERAÇÃO SOBRE O CAPÍTULO PRIMEIRO DE "O CAPITAL" DE KARL MARX

BREVÍSSIMA CONSIDERAÇÃO SOBRE O CAPÍTULO PRIMEIRO DE "O CAPITAL" DE KARL MARX.

Se considerarmos a demanda econômica como conjunto das necessidades humanas concretas, concernentes aos valores de uso das mercadorias, então é factível aduzir que o problema da dissociação entre oferta e procura, a saber, entre produção e consumo (ou circulação) já se encontra implícito no capítulo primeiro do livro primeiro de O Capital de Karl Marx, que versa sobre a mercadoria, o que apenas confirma a grandiloquência do pensamento crítico desse autor.

Com efeito, no duplo caráter da mercadoria como valor de uso e valor já reside, respectivamente, a dissociação entre demanda e oferta: ora, a oferta no capitalismo guarda como escopo tão somente a obtenção de mais-valia, isto é, a valorização de valor, sem qualquer consideração com a demanda concreta por valores de uso, nos termos acima, dissociação esta que induz à possibilidade de crises recorrentes típicas do caos econômico ínsito ao modo de produção capitalista. 

(POR LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

HIPÓTESE MARXISTA PARA UMA LEI TENDENCIAL DO VALOR

Como cediço, o valor da mercadoria, para Marx, é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la, mas essa média social, em “O Capital”, restou indeterminada quanto ao espaço e quanto ao tempo, vale dizer, não se atrela tal média social a qualquer limite concreto de ordem espaço-temporal.

Urge, pois, aventar a hipótese de que esta média social é tendencialmente mais ampla no espaço ao longo do tempo, a saber, ao longo da história, conquanto se verifiquem também retrocessos contrários à tendência histórica geral.

Destarte, podemos discernir alguns períodos históricos quanto ao nível concreto em que se determina a média social que estabelece o valor das mercadorias, a saber:

1) Nível local, no âmbito das corporações de ofício, quando predomina a produção artesanal, o dinheiro ainda fica atrelado ao ouro e a circulação de mercadorias é restrita também ao âmbito local;

2) Nível nacional, no âmbito dos Estados-nações mercantilistas, quando predomina a produção manufatureira (com subsunção meramente formal do trabalho no capital), circulação de mercadorias muito restrita ao âmbito nacional e dinheiro ainda em forma metálica de ouro ou prata;
3) Nível nacional ainda, mas com maior desinibição da circulação internacional de mercadorias entre os Estados-nações ditos “liberais”, predomínio da maquinaria e grande indústria (com subsunção real do trabalho no capital) e dinheiro em papel-moeda nacionalmente impresso.
4) Nível mundial, a ser alcançado no comunismo em todo o planeta.


Observe-se que o dinheiro torna-se cada vez mais virtual quanto ao seu suporte material, em razão da gradativamente menor quantidade de trabalho consubstanciada nas mercadorias individualmente consideradas.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)

quinta-feira, 14 de junho de 2018

MAIS-VALIA RELATIVA E VELOCIDADE DE CIRCULAÇÃO DE CAPITAL

MAIS-VALIA RELATIVA E VELOCIDADE DE CIRCULAÇÃO DE CAPITAL.

Consoante o disposto no capítulo décimo do livro primeiro de O Capital de Karl Marx, que versa sobre a mais-valia relativa, o capitalista que pioneiramente inova no processo de produção, diminuindo o tempo de trabalho necessário para produzir sua mercadoria, torna-se capaz de vender tal mercadoria por um preço menor que o seu valor, porém maior que o tempo de trabalho gasto em sua produção, o que lhe confere vantagem no mercado. 

Mas essa vantagem dura apenas o tempo de difusão social dessa inovação do processo de produção da mercadoria em comento, pois assim que a nova tecnologia se propaga socialmente, passando a constituir a regra do processo produtivo da mercadoria, o capitalista pioneiro perde a vantagem e passa a concorrer no mercado em igualdade de condições com os outros capitalistas.

Por isso é que, para o capitalista pioneiro, exibe-se importante a velocidade de circulação de capital, pois quanto maior essa velocidade, mais mercadorias a menor preço ele poderá vender no mercado, por ele dominado enquanto sua inovação tecnológica não se difundir socialmente.

Os investimentos em infraestrutura, notadamente em transportes e telecomunicações, aumentam a velocidade de circulação de capital e, assim, fomentam o pioneirismo na inovação do processo produtivo, atuando como móvel do desenvolvimento tecnológico no capitalismo, sendo certo que há evidências de que as revoluções técnicas do sistema estão fortemente relacionadas com os ciclos econômicos de longa duração.

A revolução digital, por exemplo, atuou fortemente no campo das telecomunicações para aumentar a velocidade de circulação de capital. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, historiador)