domingo, 31 de agosto de 2014

RIO DE JANEIRO: A NOVA CALIFÓRNIA BRASILEIRA?

Decididamente, o Rio de Janeiro está em alta.

A revista “Forbes” de agosto do ano corrente publicou uma nova lista dos bilionários mais afortunados do Brasil, em que há seis cariocas entre os 10 mais bem colocados, e nenhum paulista.

O jornal “Folha de SP” registrou em 23 de agosto, por seu turno, que a região metropolitana do Rio de Janeiro ostenta atualmente uma média salarial maior do que a da capital paulistana.

O carioca Artur Ávila, do prestigioso Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, do Rio de Janeiro, foi o primeiro latino-americano laureado com a Medalha Fields, considerada o Nobel dessa ciência: ele estudou ainda nos festejados colégios cariocas de São Bento e Santo Agostinho, reiteradamente entre as primeiras escolas do elenco do ENEM, afora ter-se graduado na UFRJ.

Enquanto isso, a USP enfrenta um perigosíssimo processo de crise financeira.

Parece que a outrora poderosa economia paulista vai começando a perder terreno, talvez pelo fato de estar muito vinculada à velha indústria das primeiras revoluções tecnológicas.

No Rio de Janeiro, ao revés, assim como ocorreu com a Califórnia de Hollywood, a promissora indústria de entretenimento, nomeadamente mídia e comunicação, exibe um peso bastante importante, bastando saber que a cidade é sede das Organizações Globo, um dos maiores conglomerados de mídia do mundo, além de acolher empresas de telecomunicações como CorpCo, TIM, NET, Embratel, Intelig e StarOne.

O Rio de Janeiro também produz 65% do cinema nacional, conta com um grande parque gráfico-editorial e ainda uma indústria fonográfica de muito relevo, com empresas como EMI, Universal, Sony BMG, Warner e SomLivre.

A indústria relacionada às novas formas de necessidades humanas, lastreadas na mídia e entretenimento, bem assim à nova tecnologia de informação, parece mais alvissareira do que a velha indústria de São Paulo, de geração tecnológica anterior.

Ora, o Rio de Janeiro ainda não é o Vale do Silício brasileiro, até mesmo porque o Brasil ainda não passou pela revolução tecnológica da informática, mas aparenta estar bem mais perto de ser uma nova Califórnia latino-americana, se comparada a São Paulo.

(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira)

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

MÉDICOS (GINECOLOGISTAS) E MONSTROS

SOBRE O FILME "DEAD RINGERS" (1988) 

Este filme está, decerto, entres os mais instigantes e interessantes a que já tive a oportunidade de assistir. Como sói acontecer em sua cuidadosamente elaborada obra, o respectivo diretor David Cronenberg, mais uma vez, procura escrutinar os tênues limites envolvidos na problemática dicotomia entre natureza e civilização, desincumbindo-se com a comezinha maestria.

Muitas questões são abordadas na película, mas destaco o aberrante relacionamento entre os gêmeos univitelinos Elliot e Beverly Mantle, renomados ginecologistas de Toronto, com a infértil e mutante atriz Claire Niveau, dotada de um igualmente aberrante útero trifurcado.

Beverly, o mais sentimental dos gêmeos, logo apaixona-se por Claire e passa a compartilhar com ela um deletério vício por medicamentos controlados. Aqui já exsurge a questão: fármacos são de fato uma prova da transformação bem sucedida da natureza pela civilização? O que dizer dos efeitos colaterais e da dependência química?

Obcecado com sua parceira trifurcada e manipuladora, Beverly incorre em psicose e encomenda a um artista a confecção de instrumentos ginecológicos com formas orgânicas grotescas para, supostamente, operar mulheres mutantes, instrumentos estes que evocam a arquitetura de Antoni Gaudí ou a geometria fractal de Benoit Mandelbrot: aqui a natureza orgânica impõe-se à ciência linear inventada pela civilização.

Mas o interessante mesmo do filme, e que o faz muito atual para nós brasileiros, é a questão da pretensa onipotência da ciência, aquela mesma capaz de transformar médicos (ginecologistas) em monstros.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

EDUCAÇÃO PARA TODOS.

"Se enxerguei mais longe, foi porque me apoiei sobre os ombros de gigantes" (Isaac Newton)  

O indivíduo humano é um ser social não apenas por pertencer à sociedade de sua época, mas por ser fruto das gerações que o precederam, de tal sorte que o tempo passado constitui a sua identidade tanto quanto o tempo de sua existência corpórea. Logo, como ser social, o indivíduo humano é também um ser histórico. O mesmo sucede com o conhecimento, que é histórico e cumulativo, de que se dessume que o cuidado com a transmissão do conhecimento aos indivíduos, por intermédio da educação, constitui a única forma de manter uma sociedade saudável e em progresso acelerado.

(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira)

terça-feira, 26 de agosto de 2014

DEMOCRACIA DIRETA OU "HORIZONTAL"

TESES SOBRE JUNHO DE 2013: SOBRE A EMERGENTE DEMOCRACIA HORIZONTAL.

1. A revolução microeletrônica, ou revolução no campo da tecnologia da informação, exerceu influência no próprio modo de produção capitalista com a robótica, por exemplo, que aumentou a composição orgânica do capital e provocou um decréscimo, portanto, nas taxas de lucro.

2. Ao mesmo tempo, tal revolução compensou a queda das taxas de lucro mediante o aumento da velocidade de rotação do capital, através de melhorias e incremento dos serviços como transportes e telecomunicações, no setor terciário da economia.

3. De 1 e 2 deriva que aumentou muito a proporção da população empregada no setor terciário (novas classes médias) em relação à população fabril do setor secundário.

4. De 3 deriva que as novas classes médias do setor terciário da economia, proporcionalmente em ascensão, tomaram certa dianteira política em relação aos trabalhadores fabris, o que restou patente nas jornadas de junho de 2013 no Brasil.

5. A nova forma de organização política horizontal do Movimento Passe Livre é típica das novas classes médias do setor terciário da economia, que por ora não emulam pelo poder estatal, mas pode e deve ser incorporada pela forma política partidária que efetivamente disputa o controle do poder estatal.

6. A forma política do partido tradicional está historicamente vinculada à luta de classes entre capital e trabalho, entre burguesia e proletariado, mas deve ser atualizada para incorporar os movimentos horizontais do setor terciário da economia e suas correspondentes classes médias em ascensão.

7. Já que o setor terciário da economia, a saber, a nova classe média organiza-se em movimentos políticos horizontais através das redes sociais da internet, seria preciso que o partido político tradicional de esquerda engendre sua própria rede social para atender demandas desse setor da economia, bem assim incorpore formas dinâmicas de democracia direta, que designamos “democracia horizontal”, nas suas redes sociais.

8. Denominamos “democracia horizontal” porque tais movimentos horizontais votam e pugnam por reivindicações e propostas concretas (democracia direta) e não em representantes e líderes políticos (democracia representativa).

9. O MPL, por exemplo, constitui forma de organização horizontal de democracia direta que vota e luta por reivindicações concretas na área de transporte público gratuito.

POR LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

OUTRAS CONJECTURAS SOBRE HISTÓRIA ECONÔMICA E PLANIFICAÇÃO

1) A contradição ínsita à forma mercadoria, nomeadamente entre seu valor (aspecto abstrato, “gelatina” de trabalho abstrato, indiscriminado) e seu valor-de-uso (aspecto concreto, apto a satisfazer necessidades humanas), desdobra-se na contradição entre o processo de produção e o processo de circulação de capital.

2) Quanto ao primeiro processo, interessa apenas o aspecto abstrato da mercadoria, a saber, a produção de mais-valia, a valorização de valor abstrato.

3) Quanto ao segundo processo, interessa a realização da mais-valia, a saber, sua concretização pela venda da mercadoria, o que enseja o reinício do ciclo do capital. Ora, aqui interessa o valor-de-uso da mercadoria, sua aptidão para satisfazer necessidades humanas concretas.

4) Bem, a primeira Revolução Industrial, na década de 1770 na Inglaterra, afetou basicamente o primeiro processo, aquele de produção de capital, sem criar novas necessidades humanas concretas, sendo certo que a indústria têxtil, já então existente, foi revolucionada em seu processo de produção.

5) Duzentos anos depois, nos Estados Unidos da América, uma nova revolução industrial, nomeadamente a revolução informática, passa a afetar também e principalmente o processo de circulação de capital, aquele atinente ao valor-de-uso da mercadoria, isto é, seu aspecto concreto, pois não apenas acelerou este processo de circulação, mas também criou novas necessidades humanas concretas, como o uso de computadores, celulares, tablets, etc.

6) Tal revolução informática derrotou fragorosamente a expansão econômica dos países de planificação socialista lastreada no aspecto abstrato da mercadoria, a saber, no processo de produção de capital, na medida em que revolucionou precisamente o processo de circulação de capital, onde se divisa o aspecto concreto da mercadoria, seu valor-de-uso, afora engendrar novas necessidades humanas, novos valores-de-uso.

7) O desafio hodierno consiste, pois, em suplantar a crise mundial do capitalismo mediante uma planificação econômica em que se divise o processo de circulação das mercadorias e seu aspecto concreto de valor-de-uso, o que já se delineia de forma embrionária e incipiente nos sítios de comércio eletrônico, como Amazon e Alibaba, que permitem obter um panorama e um mapeamento mais ou menos fiéis da realidade concreta da oferta e demanda de mercadorias como valores-de-uso.

(Por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

HIPÓTESE SOBRE COMÉRCIO ELETRÔNICO GOVERNAMENTAL

HIPÓTESE SOBRE COMÉRCIO ELETRÔNICO GOVERNAMENTAL

As corporações de ofício medievais colimavam, mediante coordenação de oferta e procura, obstar tanto a subsunção plena da produção artesanal à forma mercadoria, como também a separação entre força de trabalho e meios de produção, vale dizer, a transformação da própria força de trabalho em mercadoria.

Os Estados mercantilistas apenas expandiram tal coordenação para abranger o âmbito nacional como um todo, entravando a penetração do capital mercantil no âmbito da produção material.

A acumulação primitiva e a revolução industrial verificadas pioneiramente na Inglaterra completaram, todavia, a subsunção da produção industrial ao capital com a respectiva transformação da força de trabalho em forma mercadoria.

Isto posto, a hipótese que lançamos consiste na necessidade da planificação econômica de jaez socialista abolir a forma mercadoria, mediante controle, inicialmente, não do processo de produção de capital, mas do processo de circulação de capital.

O escopo do controle inicial do processo de circulação de capital consiste em acelerar tal processo para que seu tempo de duração fique nulo, a saber, tendencialmente igual a zero, quando então restabelecer-se-á a coordenação perdida entre oferta e procura e a forma mercadoria começará a extinguir-se.

Dadas tais premissas de história econômica, interessante notar que a internet, mais uma vez, pode desempenhar importante protagonismo quanto ao escopo de extinção paulatina da forma mercadoria.

Com efeito, sítios de comércio eletrônico como o americano Amazon e o chinês Alibaba prestam grande serviço em favor desse escopo, na exata medida em que exibem aptidão para haurir um importante mapeamento da demanda dos produtos que oferecem à venda.

Ora, o mapeamento da demanda antolha-se-nos um passo inaugural considerável para a planificação econômica, com a resultante coordenação entre oferta e procura de mercadorias.

Nesse diapasão, economias de jaez socialista deveriam fomentar a eclosão de sítios de comércio eletrônico sob tutela governamental, como recurso comercial de obtenção de mapeamento da demanda, cujas informações podem instruir adequadamente a planificação da economia em geral.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)

domingo, 10 de agosto de 2014

CONJECTURAS ECONÔMICO-MARXISTAS DILETANTES

CONJECTURAS ECONÔMICO-MARXISTAS DILETANTES

Uma das contradições básicas do capital insere-se na contraposição entre seus processos, respectivamente, de produção e de circulação.

Para o primeiro processo, o ideal seria que o tempo de circulação fosse tendencialmente nulo, isto é, igual a zero, de tal sorte que a cada aumento da composição orgânica do capital, com a correspondente queda da taxa de lucro industrial, deveria corresponder uma diminuição do tempo de circulação para arrostar esta última consequência (queda da taxa de lucro), mediante o aumento da massa de mais-valia obtida no mesmo lapso temporal.

Para o segundo processo, o ideal seria que o valor da mercadoria fosse tendencialmente igual a zero e o número de mercadorias individuais tendencialmente infinito, como forma de maximização do lucro comercial e diminuição do tempo de estoque.

Disso resulta que o processo de produção de capital necessita da anulação do tempo do processo de circulação respectivo, ao passo que este necessita da anulação do tempo de produção, o que explica que as revoluções tecnológicas bem sucedidas afetem ao mesmo tempo os processos de produção e de circulação de capital, diminuindo simultaneamente seus tempos de manifestação.

Tal singela e incipiente conjectura deve ser demonstrada nas formas empírica e teórico-matemática.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA, procurador federal e historiador pela USP)