sábado, 7 de março de 2015

A DOBRA

A DOBRA

Jean Piaget, em sua epistemologia genética, descreveu o desenvolvimento cognitivo do indivíduo como processo de descentração: indistinção entre sujeito e objeto do conhecimento na fase do pensamento pré-operatório; distinção entre realidade interna e externa ao indivíduo, com decorrente diferenciação entre sujeito e objeto do conhecimento, na fase do pensamento operatório concreto; finalmente, o que denomino “dobra”, a saber, o indivíduo que já pode colocar a si próprio como objeto do conhecimento, na fase do pensamento operatório formal.

Arriscaria que tal evolver, tal descentração acontece também na história do conhecimento ou da ciência da humanidade em geral, de sorte que, nesse caso, por assim dizer, a ontogênese recapitula mais uma vez a filogênese.

Tomemos como exemplo o pensamento de Hegel: ele foi um dos pioneiros a atribuir inteligibilidade à história social, ou das sociedades, com sua dialética idealista. Todavia, esse idealismo absoluto adstringe a inteligibilidade à história do ser humano, porquanto somente o homem exibiria o atributo da razão de que o real é fruto, de tal sorte que resta impossível a inteligibilidade da história natural ou do universo, anteriores ao advento do homo sapiens.

O materialismo de Darwin e Marx já representa uma evolução ou salto de qualidade em relação ao idealismo absoluto de Hegel, pois permite apreender a inteligibilidade da história anterior ao advento da humanidade, vez que o ser humano deixa de estar no centro do universo: eis o nítido processo de descentração, observável também, verbi gratia, na história da suplantação das teorias geocêntrica e heliocêntrica, ou na superação da gravidade de Newton pela relatividade de Einstein.

Em todos esses casos, a humanidade foi capaz de se deslocar do centro do universo e colocar-se como o próprio objeto do conhecimento, realizando uma dobra sobre si mesma.

(Por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

LEI CONJECTURAL SOBRE CAPITAL FIXO.

Para que haja efetiva diminuição do valor individual da mercadoria mediante aumento da produtividade decorrente de investimento em capital fixo, o incremento da força produtiva do trabalho deve ser tal que compense o acréscimo de valor paulatinamente transferido aos produtos pela circulação de tal capital fixo. 

Tal lei consiste em conjectura sujeita a confirmação empírica e teórico-matemática.

(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira)      

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

DA EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA MAIS-VALIA.

CONJECTURAS SOBRE A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA MAIS-VALIA

Faz-se mister e urgente corrigir alguns equívocos constantes do meu artigo intitulado “Sobre valor e preço” (Revista Mouro n. 8, dezembro de 2013), notadamente no que pertine à postulação de inexistência da mais-valia absoluta: nesse diapasão, impõe-se aduzir que a mais-valia absoluta existiu historicamente como forma dominante no período da manufatura e do mercantilismo, sendo superada pela forma da mais-valia relativa após o advento da maquinaria e grande indústria e seu respectivo liberalismo econômico, inaugurados pela Revolução industrial do século XVIII. Após tal revolução, a mais-valia absoluta passou a existir apenas como forma residual e complementar ou subsidiária da mais-valia relativa.

Senão, vejamos.

Com efeito, o período da manufatura e do Estado mercantilista marca o incipiente desenvolvimento da forma mercadoria e, por conseguinte, da forma capital, conquanto já se observe bastante evoluído o trabalho assalariado, como consectário da separação histórica entre trabalho e meios de produção.

A manufatura exibe o período de subsunção meramente formal do trabalho no capital, quando a restrita base técnica exige a extorsão da mais-valia mediante o aumento forçado da jornada de trabalho, ou seja, um verdadeiro “roubo” de parte da jornada de trabalho do assalariado, roubo esse que, por si só, representa o incipiente desenvolvimento da forma mercadoria: cuida-se da mais-valia absoluta.

Simetricamente, a acumulação de metais preciosos pelo Estado mercantilista opera-se por meio de medidas protecionistas infensas ao pleno desenvolvimento da forma mercadoria, pelo “roubo” sistemático inerente ao antigo colonialismo e pelos estratagemas característicos desse tipo de política econômica, que engendra um estado de permanente guerra comercial e militar entre os países centrais em nome da consecução de vantagens no também incipiente comércio internacional.

Como existe um limite natural e fisiológico da expansão da jornada do trabalho assalariado, eclode em determinado momento histórico a subsunção real do trabalho no capital pelo advento da maquinaria e grande indústria típicos da primeira revolução industrial, no século XVIII, quando então exsurge a mais-valia relativa como descrita no meu texto supracitado, que foi inspirado, por seu turno, no capítulo X do livro primeiro de “O Capital” de Marx.

Aqui já estamos em período de pleno desenvolvimento das formas mercadoria e capital, restando a mais-valia absoluta como forma meramente residual e subsidiária da mais-valia relativa. Simetricamente, o Estado liberal soterra o mercantilismo em nome do livre comércio, condição necessária a esse novo patamar de desenvolvimento histórico da forma mercadoria e da forma capital.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)

sábado, 3 de janeiro de 2015

TRANSVALORAÇÃO HIPOSTASIADA.

Se Nietzsche propunha ostensivamente a aniquilação da metafísica platônico-cristã a marteladas, mediante o que designou "transvaloração de todos os valores", não é menos verdadeiro que Marx exortava os proletários de todo o mundo a, por assim dizer, usarem seus martelos contra a "valorização de valor" ínsita ao capital.

Bem, tais autores adotavam conceitos diversos de "valor", mas permitir-me-ei aqui fazer uma pequena digressão diletante sobre aquilo que há de comum entre os mesmos.         

Ora, parece-nos lícito aventar que o projeto marxista pode ser considerado uma certa hipostasia da transvaloração nietzscheana, na exata medida em que pretende liquidar com a alienação inerente ao trabalho humano abstrato e heterônomo, que colima tão somente a produção de mais-valia (ou valor excedente) para o capital. Mas isso de forma prática e concreta, mediante uma revolução social, ao passo que a superação dos valores metafísico-cristãos, segundo Nietzsche, opera-se no plano meramente teórico ou moral, ou no máximo comportamental. 

Todavia, há muito em comum entre a metafísica de Nietzsche e a alienação de Marx, pois ambas obstam que os homens tomem as rédeas da própria história em suas mãos, manietados que estão pelos céus, no primeiro caso, ou pelo capital, no outro. 

Ventilaríamos ainda que talvez, numa leitura livre, a transvaloração de Nietzsche exiba-se historicamente factível somente com a superação do capital, quando as "manhas teológicas" da mercadoria, consubstanciadas em sua dicotomia entre valor-de-uso e valor, serão suplantadas e os homens concretos assumirão o poder de dizer autonomamente quanto vale cada coisa e para onde querem ir, em uma tomada de assalto de sua própria história humana, demasiado humana. 

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA).        



terça-feira, 23 de dezembro de 2014

DISNEY E WAGNER, ORLANDO E BAYREUTH.

As veleidades utópicas consistem basicamente em negar as lutas de classes sociais: negação prática pela revolução comunista, que implantará no futuro a ditadura do proletariado e a paulatina superação histórica da divisão da sociedade em classes, utopia esta característica dos assalariados pelo capital. O socialismo do tipo soviético malogrou nessa tentativa, pois não alcançou a revolução tecnológica do último quartel do século passado, de sorte que sua experiência poderia ser conceituada como utópica, nada obstante seu pretenso caráter científico. 

Mas há também utopias reacionárias, igualmente infensas às lutas de classes sociais. 

Os parques temáticos da Disney em Orlando, no estado americano da Florida, são um exemplo clássico de utopia pequeno-burguesa. Está bem, reconheço que já visitei pessoalmente tais parques e, pasmem, minha condição social concreta fez-me sentir bem lá, conquanto eu defenda teoricamente o socialismo científico.

Na utopia de Disney, concretizada nos seus parques temáticos em Orlando, todos são, ou podem alcançar, o estado social de pequeno-burguês, numa relação umbilical com a história dos pequenos proprietários que formaram os Estados Unidos da América. A democracia representativa burguesa, nesses parques, é ostensivamente enaltecida: trata-se da negação da luta de classes pela utopia da possibilidade de ascensão social para todos.

Já a utopia de Richard Wagner, concretizada no festival de Bayreuth, exibe caráter mais reacionário, pois seus liames guardam relação direta com a aristocracia Junker. Ora, não é possível que todos sejam grandes latifundiários, pois esse estado social pressupõe a exploração dos servos da gleba, logo a negação da luta de classes somente se estabelece pela força militar de um Estado integralmente dominado por Junkers. 

Não por acaso, a utopia totalitária nazista deve muito ao drama musical de Richard Wagner, conquanto esse compositor nada tenha que ver com o que fizeram posteriormente de sua obra, mas talvez a loucura de Hitler possa ser definida como uma utopia Junker, uma utopia mais radicalmente reacionária, muito ligada ao processo de modernização típico da história da Alemanha, o qual foi conduzido pela aristocracia rural.       

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)          


     

                          

   

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

NEBRASKA

Sugeri neste blog que o filme italiano “A grande beleza”, ao abordar a velhice, pretende-se filosófica e politicamente neutro, restando equidistante do marxismo e do catolicismo, duas forças sociais muito importantes na Itália.

O mesmo não acontece com o filme norte-americano “Nebraska”, do realizador Alexander Payne, também sobre a velhice, pois este é francamente anticapitalista.

Com efeito, o que vemos em “Nebraska” é uma película integralmente lapidada em preto e branco, o que parece realçar a abstração ínsita à forma dinheiro, esse dinheiro, supostamente auferido em um sorteio, tão almejado pelo idoso protagonista quanto inexistente e frustrador.

Nos Estados Unidos arruinado pela crise capitalista, os demais personagens do filme também só fazem cobiçar o escasso dinheiro, na vã tentativa de salvação individual, a despeito inclusive das relações de amizade e de família.

Mas o dinheiro não é a única coisa cobiçada: o automóvel exibe-se como a mercadoria por excelência, um símbolo de status social que parece encerrar o âmago, a saber, a essência de cada pessoa.

Enfim, “Nebraska” é um filme sobre a velhice como “A grande beleza” o é, mas quem ganhou o Oscar foi este último.

Algum palpite sobre os motivos disso?

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

MERCANTILISMO E LIBERALISMO.

Consoante já aventado neste blog, as corporações de ofício medievais controlavam a produção artesanal de sorte a coordenar a pequena produtividade do trabalho às necessidades locais. 

Com o advento da manufatura e da consectária subsunção meramente formal do trabalho no capital, a produtividade do trabalho aumenta e a coordenação entre oferta e procura expande-se para abranger o âmbito nacional, tarefa atribuída aos assim denominados Estados mercantilistas. Nesse caso, a produtividade aumenta ainda muito lentamente em razão desta coordenação entre oferta e procura, sendo certo que a cisão entre valor e preço das mercadorias tampouco se desenvolve plenamente. 

Já com a eclosão da maquinaria e da grande indústria, exsurge a subsunção real do trabalho no capital, a produtividade do trabalho aumenta incessantemente e já não é possível coordenar oferta e procura a nível nacional, sendo certo que o mercantilismo cede ao liberalismo econômico. Nesse caso, desinibe-se plenamente a cisão entre valor e preço das mercadorias, inclusive nos moldes por mim preconizados no artigo intitulado "Sobre valor e preço", publicado na revista marxista Mouro número 8, de dezembro de 2013.

(por LUIS FERNANDO FRANCO MARTINS FERREIRA)