quarta-feira, 14 de junho de 2017

BREVES LINHAS SOBRE O REALISMO FANTÁSTICO.

Permitam-me efetuar uma brevíssima digressão sobre o assim designado "realismo fantástico". 

Ele parece-me, em boa medida, caudatário, assim como a filosofia de Popper e a psicanálise de Freud, do cartesianismo clássico, consoante o qual o único indício de que existo consiste no fato de que ouço meus próprios pensamentos: nesse diapasão, temos acesso a uma única realidade, a saber, o nosso próprio pensamento, o resto é incógnita.

Por outro lado, a própria locução "realismo fantástico" encerra uma contradição em termos: deveras, o romance ficcional não tem nada de realista, ele é pura invenção, pura fantasia, conquanto procure mimetizar, em certa medida, a "realidade".

A literatura de ficção do "realismo", destarte, abriu as portas, paradoxalmente, ao realismo fantástico, tendo mesmo como corolário a literatura qualificada como "do absurdo", cujos expoentes mais destacados são, ao que me parece, Kafka, Beckett e Ionesco. 

Mas deixo uma provocação: Descartes, Popper, Freud e outros, embora racionalistas e, portanto, avessos ao empirismo, acreditavam na ciência e em certa verdade que ela possa alcançar. 

Será que o elemento "fantástico" da literatura ou do pensamento não é tributário e devedor da realidade empírica, de onde ele haure sua inspiração?

(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira, historiador)

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

FRANCOFONIA

Assistindo ao belo filme de Alexander Sokurov intitulado "Francofonia", não pude deixar de pensar na lição legada por uma vítima do nazismo, o filósofo alemão Walter Benjamin, que nos transmitiu estas sábias palavras:

“Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são os que chamamos de bens culturais. Todos os bens materiais que o materialista histórico vê têm uma origem que ele não pode contemplar sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corveia anônima de seus contemporâneos. Nunca houve um monumento de cultura que também não fosse um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.”

Por uma ironia do destino, os nazistas não saquearam nem destruíram o museu do Louvre, cujo acervo foi em grande medida constituído durante as conquistas bélicas de Napoleão Bonaparte. 

Mas o filme de Sokurov foca o processo de transmissão da cultura, o qual, consoante a lição de Walter Benjamin, não está isento de barbárie: ótima escolha deste cineasta ao abordar o Louvre sob ocupação nazista, já que as guerras de conquista exacerbam e evidenciam a barbárie desse processo de transmissão cultural. 

Mas será que Sokurov conseguiu, com sua obra, escovar a história a contrapelo?

Bem, este antibolchevique declarado não é de forma alguma um materialista histórico, conquanto seu filme evoque claramente a tese do filósofo frankfurtiano. 

(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira).     

   

   



  

     

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

WINTER SLEEP

Árdua é a tarefa do comentador do filme turco "Winter Sleep", do aclamado realizador Nuri Bilge Ceylan, galardoado com a Palma de Ouro em Cannes no ano de 2014, tamanha a complexidade e a beleza dessa obra de arte, o que nos faz arrostar o perigo iminente de resvalar em reducionismo ao procurarmos esquadrinhar a película. 

Nada obstante, sucumbamos à tentação de ensaiar alguns rabiscos sobre esse nosso objeto de admiração e exame. 

Aydin, homem de muitas posses, é a figura aparentemente mais poderosa do vilarejo onde mora e onde mantém um pequeno hotel, mas é também um ex-ator obstinado em escrever uma história do teatro turco.

É justamente esse poder, o material, que Ceylan coloca em questão: ele não parece valer muita coisa diante do sentimento de honra dos inquilinos de Aydin, nem tampouco diante do amor que este homem sente pela sua bela e bem mais jovem esposa Nihal.
      
No relacionamento do casal Aydin e Nihal, aliás, Ceylan encontra matéria bastante para debruçar-se sobre a dialética entre senhor e escravo, tão cara a Hegel. 

Mas isso é pouco diante da magnitude da obra, que vale muito a pena ser vista e apreciada com bastante vagar, de acordo com o ritmo lento e introspectivo da câmera de Ceylan. 

(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira)    

      


   

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

CAFÉ MÜLLER

Alguns anos atrás, aqui em São Paulo, tive a grata satisfação e a honra de assistir ao espetáculo intitulado "Café Müller", da companhia de teatro-dança fundada por Pina Bausch, a qual falecera pouco tempo antes. Pouquíssimas vezes verti lágrimas diante de uma obra de arte, mas nessa ocasião chorei copiosamente, tal a beleza contida na capacidade estética e sintética do espetáculo. 

Ora, é cediço que os cafés, em geral, são lugares públicos onde as pessoas comparecem e se reúnem para conversar, namorar, comemorar e até mesmo trabalhar, ou seja, são logradouros que cumprem o importante papel de favorecer os relacionamentos humanos e a socialização.

O Café Müller de Pina Bausch, todavia, representa a antítese dessa função social. Nele, as relações humanas são contorcidas e mesmo obstadas por uma realidade cruel que aflige a todos os indivíduos: a inafastável solidão. 

Pina Bausch consegue, através da dança, exprimir exitosamente o inefável dessa realidade, a complicada tarefa, que se impõe a todos, consistente em romper o próprio casulo da solidão e estabelecer contato com outrem. 

Será que, como na monadologia de Leibniz, os seres humanos estão condenados ao aprisionamento inexorável dentro de si mesmos? No Café Müller de Pina Bausch, ao menos, as mônadas procuram umas às outras, conquanto de maneira deveras conturbada. 

(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira)

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O SUJEITO COGNOSCENTE COMO SER SOCIAL, OU BREVÍSSIMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE EPISTEMOLOGIA MATERIALISTA.

O proletariado exsurge na história como a classe social por excelência, porquanto completamente despojada da propriedade dos meios de produção, o que lhe confere um caráter internacional e universal. 

Seus membros, bem assim seus intelectuais orgânicos (na acepção de Gramsci), são potencialmente capazes de alcançar uma consciência de classe que ultrapassa a consciência individual dos detentores de propriedade privada de meios de produção, como a burguesia e quejandos. 

Tal consciência de classe interfere no campo do conhecimento, eis que, superando a perspectiva individual, o proletariado e seus intelectuais orgânicos podem apreender uma duração que também suplanta a duração de uma vida individual, atingindo assim a história não apenas dos indivíduos, mas das classes sociais. 

Dessa forma, Marx e Engels, intelectuais orgânicos do proletariado, foram os pioneiros a descortinar a história das classes sociais e suas lutas respectivas, bem assim a história dos diversos modos de produção ao longo do tempo, cuja dinâmica revelaram na contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. 

Nesse mesmo passo, restaram superadas, no âmbito da epistemologia, as perspectivas empirista e racionalista, vinculadas ao indivíduo como sujeito cognoscente, na medida em que o materialismo erigiu o ser social (ou a classe social) como ponto de partida para aquisição de conhecimento. 

(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira, historiador).    

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

HIPÓTESE SOBRE TEMPO HISTÓRICO E AMPLIAÇÃO DA NOÇÃO DE DURAÇÃO.

O grande historiador francês Fernand Braudel costumava, como é cediço, fragmentar a história humana em curta, média e longa durações, sendo certo que, a nosso sentir, neste último caso, a história humana de longa duração foi descortinada pela primeira vez mediante a descoberta da lógica da sucessão dos modos de produção por Marx e Engels, com a qual inauguraram o materialismo histórico. 

Mas como pode o indivíduo humano, na qualidade de sujeito cognoscente e adstrito, por evidente, à duração de uma vida, apreender pelo intelecto uma duração que exorbita o tempo dessa mesma vida?

Dir-se-á com os marxistas, no caso da longa duração da história humana, que o advento do proletariado e seu estudo, enquanto classe social portadora da possibilidade de superação do capital e, assim, da pré-história da humanidade (ver publicação anterior neste blog), consiste no fator que abre as portas para o conhecimento de toda essa pré-história humana, ou seja, de toda a lógica da sucessão dos modos de produção que antecedem a futura revolução proletária, a qual instaurará o comunismo em escala planetária. Isto porque, consoante o próprio Marx, "a anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco", vale dizer, o advento do proletariado, subjugado pelo capital, descortina todas as formas de dominação social de classes nos modos de produção precedentes.

Mas o que dizer quanto a durações ainda mais longas, que exorbitam a história humana, como nos casos da história das espécies vivas (história natural) e da história dos corpos celestes e do próprio universo, anteriores ao homo sapiens

Em uma primeira aproximação desse objeto de epistemologia, peço licença para remeter meus caros leitores a outra publicação neste blog, intitulada A dobra, em que me socorro das teorias de Jean Piaget.

Todavia, em uma próxima publicação neste blog, por seu turno, quem sabe, poderemos aprofundar o tema de forma mais conveniente, vale dizer, poderemos revisitar o problema da ampliação da duração no conhecimento do tempo histórico. 

(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira, historiador)        

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

DUAS HIPÓTESES SOBRE MATERIALISMO HISTÓRICO.

A primeira hipótese, concisamente, consiste na ideia de que, em A ideologia alemã de Marx e Engels, em particular, enquanto houver divisão do mundo em classes sociais e em Estados nacionais, a "humanidade" somente pode ser um conceito vago e abstrato, ou seja, ideológico, sendo certo que sua realidade concreta, a saber, a da humanidade, somente será efetiva com o advento do comunismo em escala internacional, ou seja, com a extinção das classes sociais e também da divisão entre Estados nacionais. 

Logo, o comunismo é que inaugura a humanidade em seu sentido prático e concreto, e os indivíduos deixarão de ser meros vetores de determinações estruturais do capital (vide a obra de Louis Althusser) para desfrutarem da verdadeira liberdade, uma liberdade também prática e concreta. 

Nesse diapasão, o humanismo, no âmbito do materialismo histórico, é um humanismo histórico, prático e concreto, que divisa e peleja pela construção da verdadeira humanidade sob a égide do comunismo. 

A segunda hipótese, de jaez epistemológico, consiste na ideia de que o materialismo histórico exibe uma transcendência prática, isto é, o advento da apreensão cognitiva da história da humanidade sob a perspectiva materialista, em particular no que pertine aos mecanismos lógicos da sucessão dos modos de produção, somente foi possível porquanto a superação da pré-história da humanidade, na acepção acima, tornou-se uma possibilidade concreta com o advento da classe proletária dominada pelo capital.

Destarte, ao sujeito cognoscente tornou-se possível superar a perspectiva do indivíduo e sua experiência empírica imediata, adstrita ao tempo de uma vida humana, para alcançar a lógica concreta e materialista do tempo histórico da humanidade, somente porquanto a própria possibilidade de superação histórica e prática do capitalismo e, portanto, da pré-história da humanidade tornou-se também real e efetiva com o advento do proletariado como classe despojada dos meios de produção.  

São duas hipóteses em caráter bem embrionário à espera, respeitosamente, de contribuições e sugestões dos caros leitores. 

(por Luis Fernando Franco Martins Ferreira, historiador).